É jogo sujo, mas sempre caímos

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Fábio Ochôa

A Fuerza ocasionalmente convida profissionais de diversas áreas para discorrer sobre o impacto da tecnologia nos seus campos de atuação. São pessoas que admiramos e acompanhamos. E hoje, com a palavra um grande parceiro, amigo e colaborador.

Vamos redefinir jogar sujo no bom sentido. Aspas gigantes, para justificar o título sensacionalista (ah, essas regras da internet…).

Em uma de suas últimas campanhas, o Nubank não poderia ser mais genial. Homenageou o Dia Internacional do Gamer. Bombou nas redes sociais em uma estética emulando os jogos de 8 bits.

Não sei por que exatamente estava pensando sobre isso esses dias, mas só o fato de ESTAR PENSANDO a respeito de uma campanha de outro ano, já mostra a pertinência dela enquanto estratégia. Poucas conseguem algo assim.

Não poderia ser diferente. Nessa ação o Nubank conseguiu um cálculo preciso de idade. Em todos os sentidos.

No vídeo o personagem corre pulando, pegando as moedinhas, pula boleto e enfrenta obstáculo como a temida porta giratória dos bancos tradicionais. O que parece simples. Mas é de uma genialidade ímpar, como a maioria das ideias geniais, aliás.

Porque nada é mais quadrado e clichê que propaganda de banco, que gritam com um megafone o quanto nos amam e querem nos ninar no colo, quando sabemos que o que buscam no fim das contas é nosso dinheiro. O Nubank subverte lindamente as regras. Primeiro, ressaltando no jogo as diferenças e as vantagens do atendimento virtual quando comparado com o presencial e, segundo, remetendo aos clássicos games de 8 bits, ligando a marca diretamente à infância do público potencial. No cálculo de idade, é certeiro para nos pegar pelo coração. O que é infinitamente mais eficiente do que a família Doriana que os bancos tanto insistem em empurrar goela abaixo.

De tempos em tempos, o publicitário que habita em mim volta a se manifestar. Foram 14 anos de folha corrida em agências, certos hábitos custam a ir embora. Hoje em dia, quando penso em propaganda, frequentemente é para constatar o quanto ela se dilapidou. A explosão das redes sociais aniquilou o principal ganha-pão das agências, que eram basicamente o pack TV-rádio-jornal-outdoor, onde de acordo com o tempo e alcance o custo de veiculação era quase o PIB de algum país pequeno.

As campanhas ficaram mais capilarizadas com as redes, mais baratas e apressadas.

E, bom, com menos investimento e menos criatividade ainda, verdade seja dita.

Mas aí, em um mundo com 2.7 bilhões de gamers temos essa campanha. De sentido redondo. Que fala encantadoramente para o nosso subconsciente. Assopra no ouvido sobre a busca por vitórias pessoais no jogo da vida. Tão apta a nos derrubar e jogar obstáculos. É o ponto por que jogos funcionam tão bem, eles nos proporcionam um simulacro de vitória através de regras simples e muito básicas. É a catarse necessária e definitiva para poder estarmos aqui no dia seguinte, a lógica de risco-perigo-estratégia-superação no ambiente seguro de uma brincadeira.

A nostalgia que a campanha traz também opera em uma lógica semelhante. Nostalgia é a eterna busca pela infância, um momento onde fomos felizes. Bem, na verdade não fomos, foi uma época com tantos desafios, temores e problemas como essa, mas é assim que optamos por nos lembrar dela. O passado sempre é um lugar idílico e reinventado. E no caos sempre buscamos nos refugiar na nostalgia, o famoso “no meu tempo era melhor”.

Não era. Mas deixa a gente se iludir, é sempre temerário encarar o novo.

O Nubank entende que a criança de ontem é o adulto consumidor de hoje. E no melhor espírito Stranger Things joga com signos e laços de afeto. O afeto por uma época onde a felicidade estava a 8 bits de distância.

Dois pontos que pegam em cheio. É jogo sujo? É. Sim. Aspas.

Mas, enquanto propaganda, genial é pouco para definir.

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