David Lynch, Jupiter Apple e Logotipia

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Eduardo Argoud

David Lynch é um diretor de cinema cultuado pela forma pouco convencional de sua obra e pela dose de estranheza que ela gera. A construção narrativa dos seus filmes flerta com a linguagem dos sonhos e com a estética surrealista, tornando as cenas inquietantes uma marca registrada do seu trabalho. Essa forma peculiar de criar e a curiosidade que isso gera no seu público é o propulsor para sua obra.

Em diversas cenas criadas por Lynch acabam escapando traços e indícios de sua personalidade como criador, espelhando o que está no seu interior, o que torna ainda mais rico em significados e subjetividades tudo aquilo que ele faz. A estranheza aliada à curiosidade fazem o público ir atrás de mais conteúdos que possam ajudar a entender um pouco mais sobre esse universo, fato que propicia uma interpretação também fora das telas, na busca por elementos da imperfeição humana que se alojam no espectador hospedeiro em forma de inquietação.

Pode-se traçar alguma semelhança nessa narrativa de Lynch com o trabalho do Júpiter Maça. Júpiter criava uma atmosfera dentro de suas músicas que conseguia transportar os ouvintes para um cenário muitas vezes desconfortável e curioso. Seja com suas letras ou com misturas pouco exploradas de sonoridades como rock psicodélico, bossa nova, folk, ele conseguia criar, em certos momentos, uma sensação de desconforto provocada pela insegurança de caminhar por terrenos pouco desbravados, despertando o mais sincero sentimento de estranheza, uma estranheza natural do que é novo.

Ao se fazer um esforço de fechar os olhos e escutar a “Marchinha Psicótica de Dr. Soup”, por exemplo, é possível chegar em um cenário imaginário próximo de cenas do filme “Veludo Azul” de Lynch, uma atmosfera estranha, complexa e extremamente humana.

Bem, chegando até aqui a pergunta que paira é: “o que raios isso tem a ver com logotipos?”. É compreensível. Talvez essas semelhanças estejam presentes de uma forma mais abstrata, porém é possível traçar uma linha paralela semântica entre elas.

O logotipo em si é a síntese de todos os conceitos de uma empresa, resumidos em uma assinatura verbal e visual, a simplificação máxima de uma série de atributos. A marca deve ser capaz de transportar as pessoas para um cenário onde é natural certos tipos de comportamentos e narrativas, características da empresa em questão. Muitas vezes o logo deve expressar todos seus conceitos de uma maneira bastante simplificada, mas não óbvia. Ele busca expressar a complexidade do contexto do negócio e dos seres humanos que ali trabalham, além é claro, dos seus consumidores, mesmo que seja de formas sutis.

Em um projeto de identidade visual o designer procura expressar essas peculiaridades através dos elementos presentes na marca, além disso, utiliza-se da própria interpretação de quem entra em contato com ela como uma forma de completar seu significado.

Esse discurso visual, o qual se busca desenvolver, tem como objetivo criar memória de marca e, por muitas vezes, uma marca com características pouco convencionais gera mais curiosidade, tanto de tentar fazer uma leitura mais profunda dos significados presentes, como também de buscar o conteúdo que ela divide com seus consumidores, que apresenta (ou pelo menos seria interessante que apresentasse) linhas conceituais que dialoguem com a representação gráfica. Essa provocação que o logotipo gera funciona como um convite para decodificar a essência da empresa, ajudando a tornar a marca memorável.

O cérebro humano adora histórias e é natural a busca por ler as narrativas contidas em textos, fotos, objetos, filmes, músicas e também logotipos. A curiosidade para interpretar e entender essas histórias é o combustível que leva as pessoas a quererem buscar significados mais complexos e menos explícitos, ou como diz um velho provérbio alemão: o diabo mora nos detalhes.

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